Nesta terça-feira (15/09), o Senado dos EUA barrou o avanço do CLARITY Act (Digital Asset Market Clarity Act), a principal aposta do setor por um marco regulatório federal para cripto. O resultado imediato: mercado no vermelho — mas com efeitos bem diferentes entre bitcoin e os ativos mais dependentes de regras claras, como exchanges e emissoras de stablecoin.
O que aconteceu
A votação foi procedimental (cloture / motion to proceed sobre o H.R. 3633), não a aprovação final do texto. Eram necessários 60 votos para o projeto avançar ao debate em plenário; o resultado ficou em 49 a favor e 50 contra, com um senador ausente. Nenhum democrata votou a favor. Quatro republicanos também votaram "não": Susan Collins (Maine), Josh Hawley (Missouri), Jerry Moran (Kansas) e Thom Tillis (Carolina do Norte) — este último por razão processual, para preservar a possibilidade de reapresentar o projeto depois. O líder da maioria, John Thune, já entrou com moção de reconsideração: o projeto segue tecnicamente vivo, mas travado.
Por que travou
O impasse girou em torno das regras de ética. Democratas queriam salvaguardas mais duras contra conflitos de interesse ligados aos negócios cripto do presidente Trump e de sua família, que teriam somado cerca de US$ 1,4 bilhão em ganhos com cripto em 2025 — incluindo a exchange World Liberty Financial e o token $TRUMP. Os republicanos apresentaram uma versão revisada no domingo, incorporando boa parte das exigências democratas, mas isso não foi suficiente para destravar os votos. A senadora Cynthia Lummis, principal autora do projeto, culpou os democratas por abandonar meses de negociação; do outro lado, Ruben Gallego (D-AZ) disse que foram os republicanos que encerraram as conversas e forçaram a votação. Um executivo do setor resumiu o clima em uma palavra, ao dizer a um jornalista que o projeto havia morrido.
Reação do mercado
O bitcoin recuou cerca de 4%, caindo abaixo de US$ 76 mil após operar perto de US$ 79-80 mil horas antes. Mas quem sentiu mais foram as ações diretamente ligadas à necessidade de clareza regulatória: Coinbase (COIN) fechou o dia com queda de cerca de 10%, e a Circle (CRCL), emissora do USDC, caiu mais de 10%. Outros nomes do setor, como Strategy e Robinhood, também recuaram.
O que vem agora
Na prática, o assunto está encerrado para 2026. O Senado entra em recesso em outubro e só volta depois das eleições de meio de mandato de novembro; a Câmara recessa ainda antes. A próxima janela realista para retomar o projeto só deve aparecer com a composição de um novo Congresso — o que empurra a incerteza regulatória pelo menos até 2027. Enquanto isso, SEC e CFTC continuam regulando o setor por conta própria, com regras de agência que são mais rápidas de implementar, mas também mais fáceis de reverter do que uma lei aprovada pelo Congresso.
Minha leitura
Vale separar duas coisas: foi um revés político real, não um colapso estrutural do setor. O mercado já vinha precificando esse risco — dias antes, mercados de previsão davam pouca chance ao projeto. O dado mais relevante não é a queda de hoje, é o tipo de regulação que fica no lugar da lei: um "prêmio de incerteza" permanente, que pesa mais sobre exchanges, emissoras de stablecoin e protocolos DeFi do que sobre o bitcoin — tratado, na prática, como o ativo mais "seguro" dentro do próprio universo cripto.
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