A Coinbase deu mais um passo importante para aproximar o Bitcoin da economia tradicional ao anunciar uma parceria com a Better Mortgage para oferecer, nos Estados Unidos, uma nova modalidade de financiamento imobiliário garantido por criptomoedas. A proposta permite que investidores utilizem seus bitcoins para ajudar na compra de uma casa sem precisar vendê-los. Embora esteja sendo chamada de “hipoteca garantida por Bitcoin”, a estrutura é um pouco mais sofisticada: a Coinbase fornece a infraestrutura institucional para a custódia dos ativos digitais, enquanto a Better Mortgage é responsável pela análise de crédito, pela concessão e pela administração dos empréstimos. Na prática, o comprador recebe dois financiamentos no momento da aquisição do imóvel. O primeiro é uma hipoteca imobiliária tradicional, enquadrada nos critérios da Fannie Mae, uma das principais instituições do sistema habitacional americano. O segundo empréstimo fornece o dinheiro necessário para pagar a entrada e é garantido tanto pelos bitcoins oferecidos pelo cliente quanto por uma segunda garantia constituída sobre o imóvel. Assim, o Bitcoin não substitui integralmente a hipoteca nem é entregue diretamente ao vendedor da casa: ele funciona como garantia para levantar os recursos destinados à entrada. O nível de garantia exigido é elevado. Para obter US$ 100 mil destinados à entrada, por exemplo, o comprador precisa oferecer inicialmente cerca de US$ 250 mil em Bitcoin, o equivalente a uma garantia de 250% do valor emprestado. Os bitcoins ficam sob custódia da Better Mortgage em uma conta institucional mantida na Coinbase Prime e permanecem bloqueados durante a vigência da obrigação. A principal vantagem é que o investidor preserva sua posição no ativo, mantém a possibilidade de se beneficiar de uma valorização futura e evita realizar imediatamente um possível ganho de capital tributável decorrente da venda das moedas. Outro diferencial relevante é a ausência de chamadas de margem provocadas pela volatilidade. Em empréstimos convencionais garantidos por criptomoedas, uma queda acentuada do Bitcoin pode obrigar o cliente a adicionar novas garantias ou provocar uma liquidação automática. Nesse financiamento imobiliário, as empresas afirmam que as oscilações do mercado não alteram as taxas ou as condições contratadas e não obrigam o comprador a complementar a garantia. Isso não elimina, entretanto, o risco de perda dos bitcoins: se o cliente permanecer inadimplente por 60 dias, a Better Mortgage poderá liquidar os ativos. A execução da garantia sobre o imóvel segue um procedimento separado e pode começar após 180 dias de atraso. A iniciativa representa um marco para a integração do Bitcoin ao sistema financeiro dos Estados Unidos, pois transforma uma riqueza até então pouco aceita pelos bancos em instrumento de acesso ao crédito imobiliário. Ainda assim, o produto não significa dinheiro fácil: o comprador assume duas dívidas, compromete uma quantidade considerável de bitcoins e oferece também o próprio imóvel como garantia. Disponível em modalidades com prazos fixos de 15 ou 30 anos e sujeito à aprovação de crédito, o financiamento será provavelmente restrito, num primeiro momento, a investidores com grande patrimônio em criptomoedas. Mesmo assim, a mensagem é poderosa: o Bitcoin começa a deixar de ser visto apenas como um ativo especulativo e passa a ser utilizado como garantia para uma das operações financeiras mais tradicionais da vida cotidiana — a compra da casa própria.