Sobre a Binance, o Irã e por que precisamos melhorar como indústria

Atualização: Para mais detalhes, favor se referir a este blog sobre comentários feitos pela firma Elliptic, que é líder da indústria de análises de blockchain.
Faz um tempo que eu não consigo sentar para escrever. A última vez foi para detalhar o nosso processo de sanções e dar a vocês uma compreensão mais ampla de como a Binance, a maior corretora de criptomoedas do mundo, continua inovando para garantir que está cumprindo as leis internacionais de sanções.
Acho que agora é o momento certo para eu continuar essa conversa, tendo em vista os acontecimentos recentes relacionados ao Irã.
No início da semana, descobrimos que a Binance interagiu com certos ‘nexuses’ sediados no Irã.
“Nexus” sendo um termo formal utilizado no contexto de sanções para descrever usuários de corretoras cripto sediadas no Irã que tentaram movimentar cripto através da corretora da Binance.
Assim que descobrimos isso, nos movimentamos para congelar as transferências, bloquear contas e seguir o protocolo estabelecido por nossa equipe de compliance.
Lidar com esses tipos de indivíduos mal intencionados é algo que nós, assim como toda grande instituição de finanças global, temos que enfrentar todos os dias.
Me senti compelido a escrever essa carta para esclarecer alguns dos problemas que estamos enfrentando dentro da indústria ao lidar com entes sancionados, e também para fazer um apelo a nossos colegas da indústria para se posicionarem de forma mais forte contra esse tipo de comportamento ilícito.
O problema
Não é nenhum segredo que conforme a cripto amadurece, nós enfrentaremos muitos dos mesmos problemas que contaminaram as instituições financeiras tradicionais ao longo de décadas.
Em especial, a grande questão para corretoras centralizadas como a Binance é “como impedir indivíduos sancionados de acessarem nossa plataforma enquanto, ao mesmo tempo, honramos os princípios da descentralização.”
Eu acredito que nenhuma corretora, incluindo a Binance, conseguiu resolver essa questão.
Mas isso não significa que nós não fizemos nada a respeito disso - longe disso. Nós implementamos protocolos KYC extremamente robustos e investimos na melhor tecnologia e nas melhores pessoas para assegurar que os indivíduos que não deveriam usar nossa plataforma não consigam acessar nosso ecossistema.
Entretanto, como é o caso frequente, nós acabamos correndo atrás deles, especialmente quando se tem em mente a velocidade e anonimidade oferecida pela blockchain.
Esse é um problema que permeia toda a indústria, e um que eu sinto que meus colegas em outras corretoras deveriam estar tratando. Tem uma frase interessante de um colega da Chainalysis que eu sempre tenho em mente: “Você não consegue controlar o que chega na sua exchange, mas você consegue controlar o que você faz com isso quando chega na sua plataforma”. Então, se o objetivo é melhorar o controle sobre o que chega em nossa exchange, precisamos trabalhar juntos.
Irã
Usemos o Irã como exemplo. Apesar de não sermos uma companhia americana obrigada a seguir a lei dos Estados Unidos, como líder da indústria, trabalhamos duro para manter indivíduos sancionados fora de nossa plataforma.
Quando os EUA reestabeleceram as sanções que haviam suspendido no Irã em 2018, a Binance optou por dizer aos traders do Irã que eles não poderiam seguir usando nossos serviços, e teriam de liquidar suas contas.
Essa decisão afetou apenas usuários sediados no Irã, e não teve impacto algum na mais ampla comunidade iraniana ao redor do mundo. Assim, iranianos residindo fora do Irã, que não tivessem nenhuma renda oriunda do país, poderiam continuar acessando nossos serviços.
Investimos fortemente em tecnologias de KYC (Know Your Customer) e de monitoramento de transações, com alguns dos protocolos mais rígidos da indústria. Diferentemente de muitas corretoras, nós não permitimos que usuários transacionem em nossas plataformas sem passar por checagens de KYC, que incluem o país de residência e informações pessoais de identificação.
Uma área em particular que nós alavancamos é a de monitoramento de transações. Esse é um processo dinâmico que utiliza as tecnologias mais avançadas para vigiar toda transação e assegurar que conseguimos, em tempo real, descobrir e impedir quaisquer transações e transferências ilícitas.
Para alcançar isso, trabalhamos com parceiros como a Chainalysis, a TRM Labs, a CipherTrace da Mastercard e a Elliptic, além de contar com uma série de ferramentas internas robusta. Mostrando, assim, que nós reconhecemos por completo e abraçamos nossas responsabilidades como líderes da indústria para sermos exemplos para terceiros sobre as melhores práticas a serem adotados.
Dito isso, por mais que a natureza do blockchain e a sua transparência inerente sejam ativos críticos na implementação e imposição de sanções, a própria natureza da tecnologia apresenta desafios de compliance inéditos quando analisamos o fluxo de recursos e transações que dela decorrem. Isso é algo verdadeiramente único ao mundo cripto e que praticamente não existe no universo tradicional de finanças fiat.
Essas ferramentas podem potencialmente induzir observadores do blockchain a conclusões erradas, e a fazer presunções sobre o fluxo de recursos relacionado a sanções.
Por exemplo, observando o blockchain, nota-se que através de um “Provedor de Serviços de Ativos Digitais” (VASP, em inglês) como a Binance é possível receber a transferência de recursos de uma carteira oriunda de um país sancionado como o Irã. Isso pode induzir alguém a assumir que a VASP recebendo os recursos pode estar utilizando-os para atividades proibidas, consequentemente violando leis de compliance e de sanções.
Mas a verdade é que os dados de blockchain por si só não dão conta do retrato inteiro.
É possível, sim, que a VASP recebendo a transferência da carteira iraniana não tivesse a menor intenção de interagir com eles. E também é provável que a VASP contasse com medidas e protocolos para lidar com transferências advindas destes mercados sancionados.
E, de igual modo, a VASP também poderia estar agindo em nome de um cliente para depois enviar tais recursos a um endereço que, no momento da transação, era reconhecido como legítimo. Posteriormente, pode ser que as empresas de análises de blockchain tenham chegado à conclusão de que a carteira que enviou os recursos era, na verdade, parte de um ‘nexus’ pertencente a um ente sancionado.
A moral da história é que jamais é possível determinar a intenção apenas através dos dados de blockchain.
A Binance aplica algumas das mais rígidas proteções para esses tipos de transações para que, quando nossas análises determinarem que esse tipo de incidente ocorreu, nós imediatamente montamos uma força tarefa para resolver o assunto. Qualquer falha desse sistema é inaceitável para nós.
Nós descobrimos recentemente uma falha de segurança de um fornecedor deu permissão a um "nexus" com potenciais com relações no Irã. De qualquer forma, no final do dia os erros que nossos parceiros cometem também são nossa responsabilidade de consertar. E é por isso que temos nossa equipe especializada e nossas ferramentas dedicadas a lidar com esses problemas.
Estamos colaborando de perto com o fornecedor para desenvolver soluções que irão fortalecer os sistemas e processos para essa questão que aflige toda a indústria. Não há uma corretora sequer que já tenha resolvido isso completamente. Mas, desde que eu cheguei na Binance, estou determinado a encontrar as soluções quando e onde forem necessárias, e para assegurar que nosso compromisso com a regulação e o compliance guie a indústria - como deveria. Isso é um problema passível de ser corrigido e juntos, como uma indústria, iremos consertá-lo.
Qual o Próximo Passo?
Trabalhar na indústria blockchain, e lidar com a criação e implementação de regulações de finanças global importantes, enquanto continuamos a desenvolver o ecossistema e a tecnologia em grande velocidade, é o maior desafio que os profissionais de compliance e sanções já enfrentaram. E sob essas circunstâncias desafiadoras, nós cometeremos alguns erros.
Mas, eu prometo isto: qualquer erro que cometermos, vamos trabalhar incansavelmente para aprender as lições necessárias e para aplicarmos processos e tecnologias necessárias onde seja possível diminuir as chances de repetirmos o mesmo erro. Como eu mencionei anteriormente, os bancos e outras instituições financeiras demoraram mais de um século para construir o sistema global de regulações em uso atualmente. No caso da Binance, nos cinco anos de sua existência, conseguimos pôr em prática sistemas robustos dentro de um ambiente em constante mudança, e já contratamos mais de 500 experts que são líderes da indústria para se dedicarem a compliance global e investigações.
Estamos aqui para construir, e para continuar construindo, ao longo do próximo século, e isso inclui o fortalecimento constante dos nossos sistemas regulatórios e de compliance. Mas a realidade é que os sistemas perfeitos, em algo que é essencialmente um ambiente completamente novo, não consegue ser construído da noite para o dia. O que eu estou comprometido a fazer aqui na Binance, entretanto, é pôr em prática as melhores práticas possíveis, e continuar melhorando. E dado o fato que esse problema é compartilhado por toda a indústria, eu faço um apelo para meus colegas de compliance em outras corretoras e empresas de análises de blockchain ao redor do mundo para trabalharem comigo para desenvolvermos um processo e um plano para corrigir essa falha que todos enfrentamos. Pois eu sei que, se trabalharmos juntos, nós conseguimos mitigar esse risco. Nós conseguimos superar esse problema.
Esse sou eu estendendo minha mão para todos os meus colegas no restante do nosso ecossistema: trabalhem conosco, ajudem a construir ferramentas melhores, melhorem as metodologias e guiem aqueles que são novatos para que nós consigamos elevar a indústria de blockchain, juntos. Entrarei em contato com vocês para formarmos um grupo de trabalho e iniciarmos esse diálogo.
