A BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, publicou em 22 de setembro o relatório "The Machine-Native Economy", defendendo que agentes de IA vão precisar de uma infraestrutura monetária própria. Para sustentar a tese, a gestora citou um estudo do Bitcoin Policy Institute (BPI) que mediu como modelos de IA "pensam" sobre dinheiro quando nenhuma moeda é sugerida de antemão.

O que o estudo do BPI encontrou

O BPI testou 36 modelos de fronteira (Anthropic, OpenAI, Google, DeepSeek, xAI e MiniMax) em 9.072 cenários monetários abertos. Resultados:

  • Preferência geral: Bitcoin 48,3%, stablecoins 33,2%, moeda fiduciária/dinheiro bancário 8,9%

  • Reserva de valor de longo prazo: Bitcoin 79,1%, stablecoins 6,7%, fiduciária 6%

  • Pagamentos: stablecoins 53,2%, Bitcoin 36%, fiduciária 5,1%

  • Nenhum dos 36 modelos escolheu moeda fiduciária como primeira opção

Houve variação relevante entre provedores: os modelos da Anthropic tiveram a preferência mais forte por Bitcoin (média de 68%), bem acima de outros laboratórios.

Como a BlackRock usa esses números

O relatório propõe uma arquitetura de dois níveis para a economia dos agentes de IA: stablecoins para pagamentos de alta frequência (chamadas de API, dados, computação sob demanda) e Bitcoin como reserva de valor de longo prazo, apoiado na oferta fixa e na autocustódia. A justificativa: cartões e transferências bancárias tradicionais não foram pensados para agentes autônomos operando 24h sem aprovação humana.

Pontos de atenção

  • É um estudo simulado — mede respostas de modelos de linguagem a cenários hipotéticos, não comportamento real de agentes operando no mercado.

  • Na prática, o volume de pagamentos feitos por agentes de IA hoje ainda é pequeno, e os dados on-chain citados pela própria BlackRock mostram essa atividade concentrada quase toda em stablecoins, não em Bitcoin.

  • Um estudo de acompanhamento do BPI encontrou resultado bem diferente para "unidade de conta": moeda fiduciária liderou com 41,4% e Bitcoin ficou em 13,8% — sinal de que o resultado muda conforme a pergunta é formulada.

  • A comparação com a teoria clássica de Carl Menger sobre a origem do dinheiro, repercutida por comentaristas do mercado cripto brasileiro, é uma leitura à parte — não faz parte do relatório oficial da BlackRock.

Vale reforçar: a BlackRock não afirma que "a IA prefere Bitcoin" de forma absoluta. O próprio relatório dá pouco espaço ao Bitcoin fora do papel de reserva de valor, apostando a maior parte da tese em stablecoins como o "dinheiro" prático dos agentes de IA.

Esse embate entre Bitcoin e stablecoins na economia das máquinas ainda está no começo — vou continuar acompanhando os próximos relatórios por aqui. Segue o perfil pra não perder as atualizações.

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