Falha de roteamento quase faz a Solana parar: entenda o que aconteceu
A Solana (SOL) passou por um baita aperto na manhã desta quarta-feira (12). A rede chegou a ficar a apenas 4,51 pontos percentuais do limite necessário para perder a capacidade de finalizar transações.
O problema começou depois que uma única rota de rede configurada de forma errada em um provedor de hospedagem deixou 28,83% do SOL em staking indisponível.
Para a Solana deixar de finalizar transações, seria necessário que 33,34% do staking ficasse comprometido. Naquele momento, portanto, a rede chegou perto de 86% desse limite.
A responsável pelo problema foi a Teraswitch, que explicou posteriormente o que aconteceu. A empresa utiliza internamente uma rota padrão para indicar que um roteador de borda consegue acessar a internet. Normalmente, cada local dá preferência à rota anunciada pelos próprios roteadores.
Só que uma rota padrão do site da empresa em Miami acabou sendo divulgada sem suas métricas e comunidades. Um refletor de rotas localizado em Amsterdã então espalhou essa informação para regiões da Europa e da Ásia-Pacífico.
Os roteadores dessas regiões entenderam que aquela rota era uma opção local e passaram a escolhê-la em vez da rota correta. O problema é que ela acabou sendo enviada para o núcleo do data center, onde foi considerada inválida.
Com isso, 12 sites, localizados em Londres, Amsterdã, Dublin, Frankfurt, Singapura e Tóquio, ficaram sem uma rota válida para encaminhar o tráfego.
A América do Norte, por sua vez, não foi afetada pelo incidente.
A boa notícia é que a falha foi identificada rapidamente. Os engenheiros da Teraswitch encontraram o problema em cerca de 10 minutos, e o serviço foi totalmente restaurado às 04:16:15 UTC.
O episódio mostra como uma falha aparentemente pequena na infraestrutura de internet pode, no caso de uma rede blockchain, chegar bem perto de causar um problema de grandes proporções.

Concentração de staking acende alerta na Solana
O protocolo de staking Marinade Finance foi conferir os números depois do problema e descobriu que a interrupção ficou praticamente concentrada em um único sistema autônomo.
O AS20326 reúne cerca de 118,9 milhões de SOL, mais de um quarto de todo o volume em staking na rede. Durante o incidente, aproximadamente 94% desse montante ficou fora do ar praticamente ao mesmo tempo.
E aí mora uma preocupação danada: esse percentual já passa do limite pensado justamente para evitar uma concentração desse tamanho. O programa de delegação da Fundação Solana recomenda que nenhum sistema autônomo concentre mais de 25% do staking da rede. O AS20326, porém, estava com 27,34%.
Mais de 80 milhões de SOL ficaram esperando
A análise da Marinade mostrou ainda que 59 validadores, responsáveis por cerca de 80,2 milhões de SOL, voltaram a funcionar praticamente na mesma janela de tempo em Amsterdã, Frankfurt e Tóquio.
Em vez de migrarem o tráfego para outra rota, esses validadores ficaram esperando o problema de roteamento ser resolvido.
Entre os casos mais relevantes está o da Helius, segundo maior validador da Solana, que permaneceu fora do ar durante os 33 minutos do incidente.
Dos 74 operadores que a Marinade conseguiu analisar, apenas três apresentaram recuperação sem problemas: Laine e Cogent Crypto, ambos administrados pela Sol Strategies, além da Lion3d.
A situação também mostra que o risco não está limitado a um único provedor. Outros 14,1 milhões de SOL ficaram offline praticamente no mesmo período em operadores como latitude.sh, Limestone, Butterfly Research e Allnodes.
Segundo a Marinade, os dados disponíveis não permitem explicar exatamente essa coincidência. Isso levanta outro ponto importante: medir a concentração de staking apenas pelo provedor de hospedagem pode acabar escondendo riscos que aparecem quando diferentes operadores dependem de estruturas de rede semelhantes.
A Marinade também resolveu olhar para o próprio quintal. A empresa informou que quatro sistemas autônomos concentram cerca de dois terços do staking distribuído pelo seu modelo de alocação. Um deles, o AS395201, sozinho representa 36,94%.
A própria empresa reconheceu que não é hora de ficar confortável com esse cenário — e isso vale para ela também. A Marinade afirmou que pretende revisar seus limites de concentração por rede e por data center. Também deve começar a divulgar se determinado validador conta com hot swap e failover automático, informações que hoje não são possíveis de verificar externamente.
Recompensas perdidas serão cobertas
As perdas ficaram bem menores do que poderiam ter sido. Os cerca de 333 SOL em recompensas não recebidas serão cobertos pelas garantias dos validadores ao final da época.
Mas o cenário poderia ter sido muito mais complicado. Se a quantidade de staking afetada tivesse passado de um terço da rede, a Solana poderia deixar de finalizar transações para todos os usuários. Nesse caso, nenhuma garantia seria suficiente para cobrir o impacto.
E não seria a primeira vez que a rede enfrentaria uma parada total. Em fevereiro de 2024, a Solana ficou completamente parada e levou quase cinco horas para ser reiniciada.
O episódio desta quarta-feira serve, portanto, como um baita lembrete de que descentralização não depende apenas da quantidade de validadores, mas também de como eles estão distribuídos entre redes, data centers e sistemas de infraestrutura.
