O Senado dos Estados Unidos não vai analisar o Clarity Act antes do recesso de agosto. Com isso, a proposta que busca criar regras federais para o mercado de criptomoedas ficou para setembro, justamente nas últimas semanas antes que a campanha das eleições de meio de mandato domine a agenda do Congresso.

Na noite de quinta-feira (6), o líder da maioria no Senado, o republicano John Thune, confirmou o adiamento. Segundo ele, os democratas continuam resistentes à votação do projeto. Thune afirmou ainda que vem trabalhando junto aos autores da proposta e elogiou a atuação da senadora Cynthia Lummis, dizendo que o texto deverá voltar à pauta assim que o Senado retornar dos trabalhos.

Os senadores entram em recesso nesta sexta-feira (7) e só voltam em meados de setembro. Depois disso, restará uma curta janela para discutir o projeto antes que as eleições de novembro passem a concentrar toda a atenção dos parlamentares.

No mercado de previsões Polymarket, a expectativa de aprovação do Clarity Act em 2026 despencou para apenas 13%.

Uma fonte ouvida pelo The Block afirmou que parte dos democratas prefere adiar a votação devido ao crescimento da influência política do setor de criptomoedas. O tempo extra também serviria para tentar reunir os 60 votos necessários para aprovar a proposta no plenário.

O cenário praticamente não mudou desde maio, quando o Comitê Bancário do Senado aprovou o projeto por 15 votos a 9. Na ocasião, apenas dois democratas, Ruben Gallego e Angela Alsobrooks, apoiaram a medida. Para a aprovação final, seriam necessários cerca de seis votos democratas, enquanto parte do apoio republicano também perdeu força. Caso passe pelo Senado, o texto ainda precisará retornar à Câmara antes de seguir para a sanção do presidente Donald Trump.

Questões éticas seguem travando o projeto

Os principais impasses continuam sendo os mesmos: as regras para stablecoins, os mecanismos de combate às finanças ilícitas e, principalmente, as normas éticas relacionadas aos investimentos de Donald Trump em criptomoedas.

Um adendo negociado pelos senadores Thom Tillis e Ruben Gallego, ainda em discussão com a Casa Branca, prevê que o presidente venda suas participações em negócios ligados ao setor. Pela legislação tributária americana, esse desinvestimento poderia permitir o adiamento do pagamento do imposto sobre ganhos de capital, além de oferecer outras vantagens fiscais caso os novos investimentos fossem mantidos até o fim da vida.

Em 2025, Trump declarou cerca de US$ 1,4 bilhão em ganhos relacionados a criptomoedas e memecoins e mantém uma participação de 38% na World Liberty Financial por meio de uma empresa afiliada.

O texto também daria aos procuradores-gerais estaduais a possibilidade de agir para exigir o cumprimento das regras de ética caso o Departamento de Justiça optasse por não fazê-lo. Ainda não há definição sobre a posição da Casa Branca em relação a esse ponto.

Os sinais de dificuldade para o Clarity Act já apareciam nas últimas semanas. Antes mesmo do recesso, John Thune havia indicado que o projeto dificilmente seria votado a tempo. Em junho, a Galaxy Research também reduziu para cerca de 50% a probabilidade de aprovação da proposta ainda neste ano.

Mesmo diante do atraso, representantes da indústria seguem demonstrando confiança. O diretor-executivo do Crypto Council for Innovation, Ji Hun Kim, afirmou que o adiamento foi frustrante, mas não altera o rumo das negociações. Segundo ele, cada dia sem uma regulamentação clara faz com que empresas, desenvolvedores e investidores americanos procurem outros mercados, deixando os consumidores mais expostos.

Caso o Clarity Act continue travado no Congresso, existe outra possibilidade. O presidente da SEC, Paul Atkins, declarou no mês passado que a agência está preparada para elaborar regras próprias para o setor de criptomoedas, embora parte da indústria prefira uma lei aprovada pelo Congresso, já que normas criadas apenas pela agência podem ser modificadas por futuras administrações.$BTC ,$ETH ,$XRP