Por muitos anos, fintechs concentraram esforços na criação de bancos como serviço (BaaS).

Infraestruturas que permitem oferecer contas digitais, pagamentos, cartões e crédito sem que cada empresa precise se tornar um banco tradicional. Agora, esse movimento começa a avançar um nível acima. Empresas, grandes plataformas e até governos passam a discutir a criação de moedas próprias, por meio de stablecoins.


Esse tema, que já vinha sendo debatido no ecossistema cripto, recentemente também entrou no radar da mídia tradicional e do sistema financeiro.

Por que esse avanço faz sentido no Brasil?

O Brasil se tornou um terreno particularmente favorável para essa evolução por alguns fatores estruturais:

• O Pix transformou transferências instantâneas em infraestrutura básica
• O open finance ampliou o compartilhamento de dados financeiros
• O sistema bancário já é amplamente digital
• A regulação tem buscado integrar novas tecnologias, em vez de simplesmente bloqueá-las


Nesse cenário, stablecoins deixam de parecer algo experimental e passam a ser vistas como uma extensão natural da infraestrutura financeira existente.

Casos de uso práticos que explicam o interesse pelas stablecoins

O avanço das stablecoins não está ligado à especulação, mas à eficiência operacional. Alguns usos que ajudam a explicar esse movimento:

  1. Pagamentos dentro de ecossistemas próprios
    Empresas podem usar stablecoins para pagamentos internos entre clientes, parceiros e fornecedores, reduzindo custos e intermediários.

  2. Liquidação financeira mais rápida
    Stablecoins permitem liquidação quase imediata, inclusive em operações B2B, sem depender de horários bancários ou sistemas legados.

  3. Créditos digitais e programas de fidelidade
    Pontos e créditos deixam de ser apenas registros contábeis e passam a funcionar como ativos digitais programáveis.

  4. Integração com operações internacionais
    Stablecoins facilitam transações cross-border, com menos fricção cambial e operacional.

O ponto de atenção que acompanha essa evolução

Apesar dos ganhos de eficiência, stablecoins não são neutras. Ao emitir sua própria moeda, uma empresa ou instituição passa a:

• definir regras de uso
• controlar a circulação
• estabelecer limites e permissões
• coletar dados detalhados sobre transações


Ou seja, além de inovação financeira, estamos falando de controle de infraestrutura monetária.

Esse é o ponto central do debate: a tecnologia avança rápido, mas a discussão real é quem define as regras do dinheiro digital.

Conclusão

O crescimento das stablecoins não é uma hipótese futura. Ele já está em curso, impulsionado por infraestrutura, regulação e demanda por eficiência.

A pergunta que fica não é se esse modelo vai avançar, é como ele será implementado e quem terá poder de decisão nessa nova fase do sistema financeiro. O dinheiro continua digitalizando, mas o debate agora é sobre governança, controle e limites.

Este texto parte de reflexões levantadas por uma matéria recente da Exame sobre o avanço das stablecoins no Brasil e no mundo, com análise própria.